Em algumas fases da jornada, às vezes longas, carregamos um bocado de peso na
alma. Nem um pouco raro, às vezes sem sequer notarmos. A gente costuma se
acostumar fácil às circunstâncias difíceis que, vez ou outra, podem ser mudadas
até sem grandes elaborações e movimentos, sem que se precise contar com sorte,
promessas, milagres e cercanias.
A gente costuma se adaptar demais ao que faz
nossos olhos brilharem menos. A gente costuma camuflar a exaustão. Inventar
inúmeras maneiras para revestir o coração com isolamento acústico para evitar
ouvi-lo. Fazer de conta que a vida é assim mesmo e pronto. Que somos assim mesmo
e ponto.
A gente costuma arrastar bolas de ferro e agir como se carregássemos
pétalas só pra não precisar fazer contato com as insatisfações e trabalhar para
transformá-las. A gente costuma mudar de calçada quando vê certos riscos virem
na nossa direção, mesmo que nos encantem.
A gente carrega muito peso no peito,
tantas vezes, porque resiste à mudança o máximo que consegue. Até o dia em que a
alma, com toda razão, cansada de não ser olhada, encontra o seu jeito de ser
vista e dizer quem é mesmo que manda.
Ana Jácomo


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